Conheço-o de
vista desde que vim morar para aqui. Já vi escrito o seu nome umas vezes na sua
bata de trabalho, mas é completamente impronunciável. Conheço-o como o Senhor
com o melhor emprego do Mundo, pois é a ideia que passa sempre que o vejo. Abre
sempre um sorriso para dizer bom dia a toda gente e a sua cara ilumina-se cada
vez que peço para fatiar o pão. Ele, o homem com o melhor emprego do mundo,
trabalha na padaria de um hipermercado aqui em Inglaterra, fatia pão, embala
bolos e no meio, vai falando com as pessoas. Mais do que feliz com isso, dá a
ideia de que não há melhor emprego do que o dele. Por isso, é sempre um prazer
ir ao supermercado comprar pão, recomendar o seu trabalho porque o faz com
tanta dedicação e simpatia. O supermercado, ganha mais clientes, mais negócio e
mais receita. Bem melhor do que cartões de desconto, aquele senhor veste a pele
de embaixador do supermercado e se calhar, sem o saber, já angariou centenas de
clientes.
Lembrei-me
novamente do Senhor com o melhor emprego do Mundo, quando estive estes dias em
Portugal. E lembrei-me dele, porque estive em supermercados, em áreas de
serviço e em lojas onde assisti a atendimentos pavorosos. Infelizmente, não foram
casos isolados. Infelizmente, os 10 dias que estive em Portugal de Sul a Norte
do país verifiquei o mesmo comportamento generalizado... indiferença, respostas
tortas, como se tivessem a ter a seca da vida deles ao estarem a atender ao
público.
Bem sei que um
salário de 400 ou 500 euros não é um salário de uma vida, mas qual é o ponto de
passar 8 horas por dia de má cara? Não se ganha nada com isso, certo? Pelos
vistos, há quem goste de mostrar ao mundo inteiro que está chateado. Tive a
sensação de que devia um pedido de desculpa a certos senhores das lojas por
estar a interromper algo. Estavam a fazer o maior frete do mundo em estar a
falar comigo, em se ter levantado nessa manhã, em vez de ter ficado em casa, a
ver a Júlia Pinheiro ou o Goucha. Eu, a chata, tinha a lata de ir para lá
interromper o seu sossego para pedir opiniões e preços. Eu, a parvalhona, que
deveria estar ali de férias, tinha a lata de sorrir para eles e de dizer bom dia,
quando eles, os desgraçados, estavam a trabalhar no duro desde as 9.
Chateia-me ao ver
este tipo de comportamentos quando há um número tão grande de desempregados e
estabelecimentos comerciais a fechar. São as pessoas que lá trabalham que dão
a cara que são o cartão de visitas para os estabelecimentos e que são a chave do
sucesso ou insucesso. Fico revoltada por estes lugares estarem ocupados com
gente que se vai achar injustiçada a vida inteira, que acham que o vizinho do
lado é sempre o filho da mãe cheio de sorte, que o emprego dos outros é sempre melhor do que o dele. Ele é o maior desgraçado do mundo.
Essas pessoas, vão sempre achar que lhe passou ao lado uma vida de glamour e de presenças pagas em discotecas do bairro.
De fora, tenho
uma visão diferente e mais critica. Não foi um país hospitaleiro com que me
deparei...Percebi que se toma como “ natural” e socialmente aceite este tipo de
comportamento. “Ah..pois tem muito mau feitio” ou pois,” coitado recebe pouco “como
se isso pudesse justificar o facto de tratar com desdém alguém que está ali, pede
uma opinião e quer gastar dinheiro do estabelecimento onde trabalham.
Apercebi-me que
se tornou hábito as pessoas serem assim tratadas e aceitarem “feitios “ quando,
claramente, nos empregos onde se dá a cara não há lugar para isso. Esse
“feitio” nada mais é do que uma tremenda falta de chá e dois palminhos de
testa.
