segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Amanhã Talvez

Entro numa sala comprida e sombria, com cheiro a quente de aquecimento artificial, toneladas de papel amarelecido em cima das 15 secretárias, umas canecas em porcelana em cada secretária com canetas lá dentro, fotografias dos filhos, garrafas de água meias vazias com aspecto de já terem algumas semanas, jornais diários espalhados, carteiras abandonadas, computadores ligados e casacos por trás das cadeiras.

Onde é que estão todos? São 9 e pouco e ninguém estava naquela sala na divisão de RH. Continuei a andar pela sala até chegar ao corredor, mais ao fundo, via-se um aglomerado que parecia tudo igual, vestidos de castanho e outras cores mortas, e poucos barulhos, próprio para aquela hora da manhã. Era a hora do café, como não me lembrei disso? A essa hora todos se reúnem no café. Aproveitei e fui tomar também um. A meu lado estava uma senhora baixota, cabelo curto, para o gorducha, a tomava uma bica e a comer um pastel de bacalhau ( que mistura perfeita para começar bem o dia, pensei) levantou levemente o olhar enquanto empatorrava o nutritivo pastelinho e disse: Sótora Maria João?A gente já vai, estamos só a tomar um cafesinho e a comer qualquer coisinha! ( ui, quem a ouvisse falar parecia que estava a tomar algo leve para aquela hora da manhã!) Sorri. Nem sabia que a senhora me conhecia, mas disse: “ concerteza Doutora, esteja a vontade!!” e fiquei a espera mais uns minutos.

Nestes sítios (FP- Função Pública), dão uma importância louca ás designações das pessoas, tudo é Sr. Engenheiro, Sr. Doutor, Sr. Arquitecto. Eu honestamente acho isso uma foleirada tipicamente portuguesa, mas a verdade é que tenho que usar bastantes vezes e na via das dúvidas é sempre “doutora”, sei que oleio o ego de muitos, e nestas coisa não custa nada ser simpática. Eu também não me descoso, porque o tratamento de ser meramente “ Maria João” ou “sótora / dótora / xotôra. Maria João, vai como daqui a lua.

Não estou com a mínima vontade de trabalhar, mas comparando com aquelas pessoas consigo ter mais vontade do que algum dia tiveram na vida. A senhora Doutora ( ou o que seja)dirige-se a mim, diz-me alguns problemas que estão a acontecer e coloca-me ocorrente de tudo, e eu ponho mãos ao trabalho. “ Que computador é? ( pergunto) É aquele, sótora, esteja a vontade. Eu assim faço, ponho mãos ao trabalho até a hora do almoço.

Mais a frente ....estranho o cheiro a LULAS GUIZADAS!!! (Maria , são dez da manha, estás numa divisão de RH, não há nenhuma cantina aqui perto, achas que são lulas guizadas???? Pensei que estava a alucinar!!).Continuei em frente ao computador, tentando-me abstrair do cheiro. Passado uns minutos olho para a frente e vejo algo insólito: alguém tinha levado o almoço no tupperware e decidido decongelar as lulas guizadas colocando por cima do aquecedor da divisão! Eu ...achei fantástisco, para quê utilizar um micro-ondas, se há aquecedores não é? E aliás, ás 10 da manha e estar a colocar a comida em cima do aquecedor, para além de premiar a sala com um cheirinho a refogado, daqui a 3 horas já terá o almocinho descongelado!! ( isto quase poderia ser um slogan).

Não disse nada, como é óbvio, só eu estranhava a situação e como tal, depreendo que já é hábito comum. Dizem que o tabaco faz mal, mas se calhar plástico derretido na comida, deve fazer ainda pior, mas tudo bem! Olhando a minha volta, todas parecem trabalhar imenso, porque a determinação com que se levantam para ir a casa de banho, é tão grande que parece que vão sair da sala a voar para resolver um problema gravíssimo mesmo ao lado.

Continuo o meu trabalho até a hora do almoço. A outra senhora já tem as lulas descongeladas, e as outras vão almoçar também. Eu agarro-me ao telemóvel e vou almoçar sozinha, bem longe dali. A minha hora de almoço é totalmente sagrada e dispenso totalmente falar de trabalho e por isso ou vou em boa companhia, ou então prefiro mesmo ficar com a companhia dos meus amiguinhos (os telemóveis).

Chego do almoço e começam as senhoras a chegar em alvoroço, mais um cafesinho, mais meia hora gasta. Finalmente sentam-se, esquecem-se simplesmente que estou ali a tentar fazer alguma coisa e : fala-se do filho, do pai, da mãe, das crianças, ( atendem um telefonema, escrevem meia dúzia de coisas no computador) da menstruação, a menopausa, da não sei quantas que está na Nova Gente ( tiram uma fotocópia, escrevem umas coisas no computador, abrem um processo) do não sei quantos que estava na Caras, dos saldos, do detergente, de dietas, do marido, do vizinho, da chefe que é uma sacana ( atende-se um telefone, abre-se o outlook), das cunhas, do supermercado, da telenovela. Vão lanchar e voltam meia hora depois.. e começam novamente a falar do filho ( vão buscar um dossier e mexem na aplicação), do pai, da mãe, das crianças, da menstruação, da menopausa, da não sei quantas que está na Nova Gente, do não sei quantos que estava na Caras, dos saldos ( atendem algúem na divisão), do detergente, de dietas, do marido, do vizinho, da chefe que é uma sacana, das cunhas, do supermercado, da telenovela. O tempo passa a voar entre uma conversa e outra. Nem é preciso olhar para o relógio para perceber que são 5 e meia...basta olhar à minha volta e ver a saltarem das cadeiras, como se de molas se tratassem.

Está a acabar o dia sótora.... ( e suspira fundo, como que a lamentar o dia exausto que teve!)Aqui não se pára!!! Até amanhã! Estou a ver que sim! ( digo eu)... Até amanhã!

3 comentários:

Pedro Torres disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

meri!!!!! 20 VALORES para a tua descrição espectacular da funcao publica!!! :) és linda!!!!

Catarina disse...

Maria, és a maior!! adorei este post...beijinhos desta tua FPzinha!!