quinta-feira, 17 de maio de 2007

A mão Invisível

O país acordou do sono, de uma forma brusca, como quando toca o maldito despertador numa manhã de segunda feira. Com os olhos semi-serrados como nos primeiros segundos da manhã, as imagens foram surgindo turvas até se tornarem em realidade. Algo abalava a pacatez de um país, de um cantinho no mundo onde a segurança pensa-se ser um bem mais de que adquirido, e onde o sol sorri quase todo o ano.

Na pacatez de um país, na pacatez de uma terrinha turistica ( Praia da Luz)uma miúda Inglesa desapareceu. No início ninguém lhe sabia o nome, hoje a miudinha inglesa, todos sabemos quem é pelos piores motivos : Madeleine ( Madie). Os contornos da história ainda estão esbatidos, mas há uma linha que se imagina definida que estava por trás que ainda não se percebe... multiplicam-se as especulações. O que terá acontecido à miuda? Onde ela estará?

Todos os assuntos do dia dos transportes públicos, do emprego até à hora do jantar param inevitavelmente nela. Este caso teve repercussões muito maiores do que se possa parecer à primeira vista. Entra na esfera íntima de todas as familias portuguesas em que pairou um papão negro sobre todas elas.

Vi um cenário idêntico quando estourou o escândalo da casa pia, em que em qualquer esquina imaginava-se um presumível pedófilo. Qualquer velhote que sorrisse para uma criancinha era olhado pelas pais com medo e desdém... qualquer um poderia correr o risco de ser visto como um “ tarado”.

Durante algum tempo (muito até) um alarmismo doentio, ajudado pela comunicação social, massacrou as famílias com o horror de imagens e com histórias que mostram bem até onde poderá ir a decadência humana. Explorou-se isso ao máximo, em que os media pareciam competir entre si os depoimentos mais chocantes, declarando a bom som: o direito à informação. O direito à informação a qualquer hora e a qualquer preço, enquanto as crianças assistiam a isto tudo.

Neste caso, mais uma vez, desdobra-se em capítulos, como se de uma novela se tratasse. A dor é espremida como uma laranja, mascarada por um “ pseudo-jornalismo” sério e imparcial. As crianças na idade de brincarem terão tempo de sobra para perceberem o que o mundo não é bem como as histórias dos livros, mas até então, cabe aos pais alimentar-lhes a meninice, a fantasia saudável e protegê-los com a mão invisível.

Estes casos isolados não poderão ser vistos como constantes e comuns. Prender a sete chaves em casa, privar de brincar com outros miúdos, e olhar para qualquer um como um presumível raptor ou pedófilo torna-se insustentável e de uma violência terrível para os pais e principalmente para as crianças, como uma onda de terror constante…. em que os monstros saltam dos livros infantis e passam para o vizinho do lado.

Longe de querer pintar um cenário cor-de-rosa nisto tudo eu quero contudo acreditar que na pacatez de um país como o nosso tudo será restabelecido… e o alarmismo galopante baixará os braços. … o eterno retorno...a paz perpétua para as crianças sobre a mão atenta e invisível dos pais.

6 comentários:

Luís Nogueira disse...

Tens razão! Mas também te digo, que se a miuda fosse do Burkina Faso, passado 2 dias já ninguém falava nela...Deus queira que a miuda esteja bem, mas sinceramente custa-me a acreditar nisso.

João J. disse...

É com algum espanto, que do nada, surgiu um circo mediático só porque a miuda desapareceu. Obviamente que também espero que seja encontrada sã e salva (espero não ser mais uma Joana), mas... infelizmente desaparecem muitos miudos todos os dias.. o que é que esta tem que os outros não têm.. será apenas por ser uma inglesinha que estava a passar férias no algarve...

Muito sinceramente, todos os contornos desta história, são muito estranhos.. há qualquer coisa nesta história que me parece ser um pouco mal contada. Espero que não. Entretanto, o circo lá continua a debitar informações... sobre absolutamente nada (enchimento de chouriços...)

Ticha disse...

Concordo quando dizes que não podemos trancar as crianças a sete chaves e devemos alimentar a meninisse,mas também te digo que um pouco de alerta não faz mal a ninguém, porque todos os dias desaparecem crianças...eu própria estou cá e só o "Joãozinho" lá em cima sabe como, um episódio que jamais consego apagar da memória...

Também não é segredo que por ser inglesa e por ser no algarve está a ter todo este impacto...

Anónimo disse...

Maria
Estou muito zangado contigo. Então agora censuras os meus comentários?
Não há direito.
Penso que devias revêr a tua política.
TONI

Ze_Porvinho disse...

Cara Engenheira,

Em breve penso escrever sobre o tema, não da Madeleine, mas de todas as crianças em geral.

Ainda assim, a este propósito, não posso deixar de transcrever uma das frases mais lindas de sempre, proferida por Madre Teresa de Calcutá:
"A vida foi feita para amarmos e sermos amados! Por este motivo, devemos decidir resolutamente que, nunca mais, nenhuma criança seja objecto de rejeição e de desamor!"

Num mundo perfeito, esta máxima seria seguida à risca.

Infelizmente, o mundo dos homens está longe de ser perfeito...

Hic Hic Hurra

Nota - Tenho para mim que a comunicação social está a perder o controlo a cada dia que passa e já não consegue descortinar o limite entre o dever de informar e o direito à reserva da vida privada. Quanto à pequenina, tomara eu que tal não lhe tivesse sucedido. Agora, tal como a todos os outros que, infelizmente, por esse mundo fora vão desaparecendo sem deixar rasto, resta-nos esperar e ter fé em que nada de mau lhes suceda.

Anónimo disse...

Por estas e por outras é que o Salazar ganhou o prémio de melhor portugues... às vezes é preciso uma mão pesada a segurar na trela deste povo português...