segunda-feira, 10 de setembro de 2012

E agora Portugal?

A minha geração foi enganada. Crescemos na ilusão de que se estudássemos muito e fossemos para a universidade tínhamos a vidinha feita e um futuro sem problemas de maior. Crescemos a ver os nossos pais com o mesmo emprego durante anos e este era para toda a vida. O dinheiro caía certo todos os meses. O futuro era sempre visto com optimismo e prosperidade. Foi a geração da entrada de Portugal na CEE, das auto-estradas, do abandono da agricultura, ou pelo menos do desprezo por esta. Pensava-se que os 10 anos seguintes seriam sempre melhores do que os actuais. E as pessoas tinham fé, ou confiança cega, de que o futuro ia ser melhor para os filhos do que foi para eles. A minha geração foi pós 25 de Abril e tomámos tudo por garantido e o céu parecia-nos o limite. 

E assim, do nada, 70% da população tinha “ casa própria”, os empréstimos a 25 anos ao banco tornaram-se parte da cultura portuguesa. Ter casa era, acima de tudo, obrigatório para qualquer palminho de gente. Esse passou, para nós, a ser o rumo natural das coisas, porque foi o que os nossos pais tinham feito também. Depois do crédito à habitação, foram os cartões de crédito e a lenga lenga do dinheiro à mão e acessível. E de repente, achámos que éramos todos ricos. Por isso, como país rico que pensávamos ser, desvalorizou-se o ensino técnico e os ofícios. Achava-se que esse tipo de profissões eram menores e que estávamos a pensar pequenino. Mecânicos? Eletricistas? Carpinteiros? Nada disso! Essas profissões eram socialmente pouco consideradas, ao contrário do que acontece com países mais desenvolvidos. E assim, as escolas técnicas transformaram-se em liceus, porque achava-se que o país precisava era de doutores. Muitos doutores!

Assim, naturalmente, muitos de nós chegámos ao 12º e sabíamos que o caminho óbvio era ir para a universidade e estudar para ser “ alguém”, isto é, ter um canudo debaixo do braço. Pensava-se que a emigração era para a geração "mala de cartão" ou da “Mãe querida”, ou seja,  para as tais profissões “menores” mas nunca para os “doutores”. Enquanto olhávamos por cima do ombro para esses trabalhos, outros países como a Alemanha, iam crescendo e desenvolvendo-se, não só à conta das profissões de colarinho branco mas também e sobretudo com os ditos trabalhos “menores”.

O nosso país ia mudando e encontrar emprego para nós já não era tão fácil como tinha sido para os nossos pais. Contudo, ainda se encontrava alguma coisita, nem que fosse trabalho a 600 euros. E aí nasceu a geração dos call-centres porque não havia já emprego para tantos “doutores”. De ano para ano, começou a complicar e quem saía das universidades tinha cada vez menos oportunidades de emprego, dentro ou fora da área em que se tinha formado.

As gerações posteriores à minha, que agora terminaram a universidade, ou os que estão à procura de emprego, têm uma realidade sombria e que não se vislumbra uma solução. Nesta Sexta-feira então, perdi a minha fé. Muitos dos jovens não têm emprego e quem tem, tem medo de o perder e vive-se angustiado com isso. Os nossos pais, hoje reformados, vivem com menos dois salários do que antes. A emigração é mais vista como uma saída e talvez a única possível neste momento para quem tem uma mão cheia de nada. Ter filhos, então é visto com uma loucura, nesta sociedade tão instável e tão doente e a natalidade está mais baixa do que nunca.

Um país bafejado por tanta beleza, bom clima, boas gentes, heróis do passado, vai acabar assim? E agora Portugal?

3 comentários:

tata disse...

E agora Portugal? Amo-te muito minha nação mas o Amor deve ser recíproco e eu estou a ficar cansada de tanta pancada....

Rabodesaia disse...

Isto é violência doméstica Tata. É como aqueles maridos que dão pancada na mulher até a deixar toda negra e depois juram que as amam. Assim é Portugal.

Marta Dias disse...

Os empréstimos a (25?!) 40 anos ao banco tornaram-se parte da cultura portuguesa… bem como:
- ter uma carrinha ou monovolume assim que se tem um filho,
- as férias em destinos tropicais (alguem que ainda não foi ao Brasil?!?!?! Não acredito),
- a escapadinha de inverno à neve…
melhor ainda? Férias “pagas” a crédito :)

e agora Portugal?
Condições de emprego precárias: é difícil a alguém saído da universidade encontrar emprego… o conceito de bom emprego então alterou radicalmente nos últimos anos! Hoje se fizerem contrato sem prazo já e um bom emprego… bom salário? Talvez o bruto… o que chega a nós após retenções é anedótico.
Por cá, sem condições para poderem ganhar a sua independência e sair da casa dos pais, não vejo como vamos aumentar as taxas de natalidade…
Com a fuga que (prevejo agravar) de gente com talento /valor/garra e formação reconhecida, quem esperam estes srs que fique a pagar os impostos loucos que existem para sustentar o resto da populaça e os negócios ruinosos dos “amigos”.

A coisa está preta… e eu estou deprê