quarta-feira, 11 de julho de 2007

Carta do pai do Zé Porvinho ( Aldeia Lusitana)

caro vizinho Ze Porvinho,

Depois de horas a fio a tentar decifrar a carta do seu pai, acho que consegui transcrever ipsis verbis aquilo que estava na carta.

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Filho,

Depois de uma ausência forçada, decidi que antes de fazer uma visitinha ao Deus Baco ( um gajo porreiro) aqui no piso de cima, que deveria procurar-te e dizer-te que não há um dia sequer que não tenha pensado em ti!

Tu foste o meu primeiro filho, depois de ti seguiram-se outros 11, mas desde que vi ao colo da tua mãe ainda bebesinho,e a primeira palavra que disseste, antes de papá e mamã foi “ cieija”( cerveja)....Logo aí percebi a quem tinhas puxado… a mim! Fiquei orgulhoso, cum catano!

Sabes filho, o amor tem destas coisas e eu lembro-me que numa terça, ou numa quarta feira, já não me lembro bem, vieram uma moças do douro para as vindimas, assim bem roliças como eu gosto e apaixonei-me, sei lá umas 6 vezes em três dias. A tua mãe apanhou-me no meio das vinhas com uma delas e viu isso como traição! Mas não foi, filho! Tive foi azar… de ter sido apanhado pela tua mãe e a mim correu-me mal porque a Anacléta depois dizia que eu tinha que casar com ela, para lavar a honra! Eu mandei-a banhar-se ao rio Douro, está claro!

O Pai dela não achou piada e andou atrás de mim durante dias e dias a fio, quando soube que a filha estava grávida.Tive que casar com ela, senão levava uma carga de porrada! Disse-me que tinha que ser homem pelo menos uma vez na vida e eu disse-lhe que era homem pelo menos uma 3 vezes por dia, que a filha quando ia comigo para o palheiro nunca se tinha queixado, e ele que lhe perguntasse se eu era macho ou não! Ainda o mandei ir pisar uvas... levei um murro no olho e uma carga de porrada dos capangas!Um homem agora já não pode dizer uma verdades!

E olha fui arrastado para o altar e casei-me mesmo nesse dia. O resto não me lembro… festa é festa,e já que era a minha festa tinha que me divertir não é?
E foi beber até cair e só me lembro de acordar casado, com a boa da “ Anacleta” ao meu lado.

A tua mãe teve uma grande decepção quando soube que me tinha casado e preferiu dizer-te que te tinha encontrado num lagar de vinho, a contar-te a verdade e à família inteira! A tua mãe voltou para a terra contigo nos braços dizendo a todos que te tinha encontrado e te tinha adoptado.

A partir daí perdi o rasto de ti e dela. Não me posso queixar da minha vida. O pai da Anacléta era riquíssimo ( já subiu de piso o senhor), e ela filha única . Fiquei a gerir a herdade e as vinhas e o nosso vinho tornou-se um dos melhores da região.

Eu e a Anacleta tivemos mais 9 filhos, houve outro que pronto a empregada diz que é meu… mas eu não sei! Se as empregadas todas lá de casa vierem com essas história estou tramado, não é?

Mas amor, amor a sério, sempre foi pela tua mãe! Nunca a vou esquecer nem a ti, porque tu és o fruto do nosso amor.
Queria mandar-lhe uma sms a dizer que tenho saudades! Dás-me o número dela? Ou achas que é abuso depois de mais de 30 anos sem notícias?

Quanto a ti meu filho, convido-te para passares comigo um fim de semana na herdade que um dia será tua! Temos muita coisa para falar! É verdade já tenho netinhos?

Perdoa-me por tudo, mas acredita que nunca te esqueci!


Hic Hic Hurra

João Porvinho

6 comentários:

Ze_Porvinho disse...

Cara vizinha,

Está genialíssima!!!! Os meus parabéns...

Devido à emoção do momento e porque as lágrimas me embaciam a visão e turvam o raciocínio, deixarei que este meu pequeno coraçãozinho de vinho acalme seus batimentos e, depois, lá no recanto da aldeia, responderei ao meu querido papá João.

Vizinha, não sei se alguma vez lhe poderei agradecer suficientemente por tudo o que fez por mim, com um altruísmo invulgar nos dias que correm, mas acredite que me tremem as pernas, os braços estão flácidos (só os braços, atenção, que eu sou tanto homem como o meu pai era por dia) e a cabeça anda loucamente à roda e eu para aqui estou, inerte, ainda incrédulo, sem saber se tal se deve à noite que passei totalmente dedicada ao vinho, se às tensões acumuladas que hoje se esvairam duplamente, aqui neste blog mercê da leitura de tão terna missiva e ali naquela esquina, já que estava mesmo à rasquinha, raios!

Não ficará sem resposta, prometo-o, a menos que me dê uma sulipampa qualquer e vá desta para melhor.

Despeço-me com gratidão inusitada e com uma dívida emocional para com V. Exa. do tamanho do Universo.

Penhoradamente, seu vizinho,

José Porvinho, filho de João Porvinho e mais da mãe dele (ou seja, da minhã mãe, que a mãe dele era a minha avô e, como tal, nunca poderia ser minha mãe, a menos que em vez do meu avô, o meu pai tivesse... chiça, que confusão!).

Rabodesaia disse...

Caro vizinho,

A solidariedade tem como princípio dar sem esperar algo em troca.
Nem tem que agradecer ou ficar grato!

Um encontro com o seu papá, lá na tal herdade já me contentará.

Não coloquei o endereço na carta, por motivos de privacidade, contudo, tenho uma foto da quinta e o endereço em meu poder. Permita-me o comentário :é magnifica!!

O seu papá insistiu em arranjar número de telemóvel da sua mãe novamente. Mas entenda-se com ele.. é o melhor!

Ze_Porvinho disse...

Cara vizinha,

Magnífica foi a Sua acção!
Já respondi, lá na aldeia, a meu pai.
Ficar-lhe-ei sempre grato por toda a atenção e carinho que soube dispensar a esta pobre criatura do mundo.
Hic Hic Hurra
Nota - Alguém tem por aí um lencinho? Um Kleenex serve...

Mary disse...

Olá minha querida,
Obrigada pelo comentário e por sua visita,
Beijos
da amiga
Mary

Ticha disse...

Muitas emoções se viveram por aqui...a está ausente nem se apercebe do grau de emoção. Os meus Parabéns vizinho Zé!

Inspector Serôdio disse...

Amiga Engenheira,

Tudo muito bonito, com lágrimas e suspiros à mistura.
Mas não me parece certo ter censurado a missiva e só publicado excertos «sentimentalmente» correctos!
O Zé já é um homenzinho e muito capaz de aguentar com as verdades!

Vá lá, deixe-se de se armar em PIDE dos sentimentos alheios e publique o texto na íntegra, «uncensured».